Sunday, June 21, 2009

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Tuesday, January 27, 2009

Elogio ao amor

“Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso “dá lá um jeitinho sentimental”. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.”


- Miguel Esteves Cardoso in Expresso

Tuesday, January 13, 2009

Perfume






Esse perfume me persegue... quente, forte e subtil
Passeia por mim livremente... como se fosse gentil
Oh ah ah... ah ah... ah ah...
Ah ah... ah ah... ah ah...

Se me aparece de repente... inspiro-o profundamente
Para desvendá-lo, para decifrá-lo, queria agarrá-lo...

Queria agarrá-lo, metê-lo no meu frasco, fechá-lo bem p'ra não fugir...
P'ra não fugir... p'ra não fugir...
P'ra não fugir... p'ra não fugir... oh ah ah ah...

Mas ele insiste, ele insiste... brinca comigo devagar
Leva-me à minha memória... convida-me a divagar

Oohhh... oohhh... oohhh... ah ah...

Queria agarrá-lo, metê-lo no meu frasco, fechá-lo bem p'ra não fugir...
P'ra não fugir... p'ra não fugir...
P'ra não fugir... p'ra não fugir...

Queria agarrá-lo, metê-lo no meu frasco, fechá-lo bem p'ra não fugir..

Monday, November 24, 2008

Oportunidade

A Verdadeira Oportunidade

Uma das palavras que mais maltratadas têm sido, no entendimento que há delas, é a palavra oportunidade. Julgam muitos que por oportunidade se entende um presente ou favor do Destino, análogo a oferecerem-nos o bilhete que há-de ter a sorte grande. Algumas vezes assim é. Na realidade quotidiana, porém, oportunidade não quer dizer isto, nem o aproveitar-se dela significa o simplesmente aceitá-la. Oportunidade, para o homem consciente e prático, é aquele fenómeno exterior que pode ser transformado em consequências vantajosas por meio de um isolamento nele, pela inteligência, de certo elemento ou elementos, e a coordenação, pela vontade, da utilização desse ou desses. Tudo mais é herdar do tio brasileiro ou não estar onde caiu a granada.

- Fernando Pessoa, in 'Teoria e Prática do Comércio'

Monday, October 13, 2008

Diz NÃO

Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros.

Diz NÃO à ordem das ruas, se ela é só a ordem do terror. Porque ela tem de nascer de ti, da paz da tua consciência, e não há ordem mais perfeita do que a ordem dos cemitérios.

Diz NÃO à cultura com que queiram promover-te, se a cultura for apenas um prolongamento da polícia. Porque a cultura não tem que ver com a ordem policial mas com a inteira liberdade de ti, não é um modo de se descer mas de se subir, não é um luxo de «elitismo», mas um modo de seres humano em toda a tua plenitude.

Diz NÃO até ao pão com que pretendem alimentar-te, se tiveres de pagá-lo com a renúncia de ti mesmo. Porque não há uma só forma de to negarem negando-to, mas infligindo-te como preço a tua humilhação.

Diz NÃO à justiça com que queiram redimir-te, se ela é apenas um modo de se redimir o redentor. Porque ela não passa nunca por um código, antes de passar pela certeza do que tu sabes ser justo.

Diz NÃO à verdade que te pregam, se ela é a mentira com que te ilude o pregador. Porque a verdade tem a face do Sol e não há noite nenhuma que prevaleça enfim contra ela.

Diz NÃO à unidade que te impõem, se ela é apenas essa imposição. Porque a unidade é apenas a necessidade irreprimível de nos reconhecermos irmãos.

Diz NÃO a todo o partido que te queiram pregar, se ele é apenas a promoção de uma ordem de rebanho. Porque sermos todos irmãos não é ordenando-nos em gado sob o comando de um pastor.

Diz NÃO ao ódio e à violência com que te queiram legitimar uma luta fratricida. Porque a justiça há-de nascer de uma consciência iluminada para a verdade e o amor, e o que se semeia no ódio é ódio até ao fim e só dá frutos de sangue.

Diz NÃO mesmo à igualdade, se ela é apenas um modo de te nivelarem pelo mais baixo e não pelo mais alto que existe também em ti. Porque ser igual na miséria e em toda a espécie de degradação não é ser promovido a homem mas despromovido a animal.

E é do NÃO ao que te limita e degrada que tu hás-de construir o SIM da tua dignidade.


- Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

Thursday, September 25, 2008

ÂNSIA

No dia em que não houver mais loucos neste mundo
A Terra há-de parar, cansada de tanto movimento
Arfando, limpará o suor da sua testa
E, como desse dilúvio nada restaria,
Numa inércia eterna que então reinaria,
Eu quero: a Terra que continue sempre
Movida pelos novos loucos que a empurram.

Tu aqui e eu lá
Neste vai-vem em que eu vou
Nem te pressinto
Será que te encontro?

Longe é que me lembras
Mas sem cuidados
É só pela distância
Ou será que também ardes?

Atolei-me na lama
Desfez-se a aço
Tocas-me aos poucos
Serei eu o que te chama?

Somos é dois loucos
Perseguidos por nós mesmos
Rasgados por dentro
Buscando que remendo?

A via da ser
Com troços de glória
Sonhos à solta,
Quiçá com revolta,
Aspiração à memória.
Amar, porvir, não ter.


- Almada Negreiros

Monday, July 14, 2008

Saber Amar

Não confundir o amor com a paixão,
dos primeiros momentos,
que pode desaparecer.
O verdadeiro carinho cresce na medida,
em que os dois estão mais unidos,
porque partilham mais.
Mas para partilhar é preciso dar.
Dar é a chave do amor.
Amor segnifica sempre entrega,
dar-se ao outro.
Só pelo sacrifício se conserva,
o amor mútuo.
Porque é preciso aprender a passar,
por alto os defeitos, a perdoar,
uma e outra vez, a não devolver,
mal por mal, a não dar uma importância,
a uma frase desagradável, etc.
Por isso o amor também significa exceder-se,
fazer mais do que é devido.


- J. L. Lorda

Tuesday, July 01, 2008

Amor e Desamor!!


Sem dúvida nenhuma que o nosso lado afectivo nos condiciona diariamente e que necessitamos de ter uma estabilidade emocional que nos permita prosseguir com as nossas vidas, nos momentos menos bons e mais complicados, para que possamos ter um apoio, uma “muleta” que nos ajude a superar as dificuldades.

Para uns é mais fácil do que outros, uns parecem arranjar rapidamente companheiro/a enquanto que outros demoram uma eternidade a encontrar a cara-metade. Será destino cruel ou castigo dos deuses?? Não me parece... Existem diversas situações que podem justificar estas discrepâncias mas nenhuma se reporta a uma causa mais pessoal.

Temos o direito de procurar bem, escolher em função da nossa própria forma de viver e não adianta estarmos a arranjar alguém para passar a noite, quando de facto queremos alguém para partilhar o dia a dia. Existem pessoas que aparentemente estão em pólos opostos, umas que arranjam namorado com facilidade e outras que não mas ambas as pessoas procuram a mesma coisa e curiosamente, sentem alguma dificuldade em faze-lo. Mas vamos ver melhor:

Não me interessa julgar e saber se é errado ou certo, esse raciocínio não é chamado para aqui, vamos ver ambas as situações e tentar aprofundar o que acontece na maioria dos casos. Assim sendo, uma pessoa (seja homem ou mulher), que não tem dificuldade em arranjar namorado tem essa vantagem...Pelo menos é socialmente elogiada porque consegue arranjar alguém e não está sozinha, a não ser nos casos em que o deseje estar. O reverso da medalha é que muitas vezes estas pessoas não procuram apenas um namorado passageiro e investem nas relações para que este último namorado seja de facto o último, antes do compromisso mais sério. Porque razão as relações vão falhando sucessivamente, ou seja, ter muitos namorados não é uma opção mas uma consequência da evolução da situação que faz com que a relação termine. Aparentemente esta pessoa tinha tudo para dar certo, porque razão é que não consegue ter uma relação mais estável e duradoura?

Esta resposta é deveras complexa e varia de caso para caso, mas muitas vezes uma pessoa acaba um relacionamento, que de forma natural não deu certo e começa a socializar e como já não estão para esperar muito, também não estamos numa época em que a demora seja algo apreciável, começa-se a ter uma daquelas relações coloridas, sai-se com alguém interessante e que até nos cativa mas no fundo a relação não passa de nada mais do que físico, porque depois verifica-se que a relação não dura muito tempo. E seguimos para outra relação colorida e por aí fora….. O homem e a mulher procuram coisas distintas inicialmente, enquanto que a mulher procura algo mais emocionalmente cativante, o homem procura algo mais físico. E se ele tiver isso logo no primeiro encontro e não foi preciso assumir nenhum compromisso para ter isso, a probabilidade de assumir algo mais sério depois de ter tido o que já queria fica muito reduzida. Não é falar mal dos homens, nem julgar ninguém, acontece assim porque a facilidade em obter as coisas desvaloriza essas mesmas coisas.

A sopa que tanto valor nutritivo tem e tão saborosa que é, perde o seu valor devido à facilidade que existe em fazer uma, se comemos todos os dias a mesma coisa faz algum sentido que quando formos comer fora não vamos pedir isso. E nem quero comparar relações com comida, mas se um homem quer ter sexo e o tem no primeiro encontro, sem existir ligação com a mulher em questão, o mais natural é que depois ele fuja ao compromisso dizendo que são bons amigos e que algo mais não irá resultar, mas quer continuar a ter sexo com ela, mas sem compromisso!!

E aqui a mulher tem um papel importante, porque deve definir o que quer para si, se quer ter uma relação estável ou algo mais casual.

Em relação às pessoas que não encontram ninguém, procuram e procuram e não surge ninguém, porque será?? Na grande maioria, nestas pessoas está patente o receio pessoal de se envolverem, de se envolverem com a pessoa errada, porque interiormente querem acertar logo à primeira. Isto faz com que existam parâmetros muito elevados, ou seja, a pessoa que procuram tem de ter determinadas características e podemos estar a falar de beleza física, ou de serem inteligentes, bons conversadores, alegres, pessoas divertidas, que gostem disto ou aquilo. Se virmos bem, quem não encontra um parceiro sucessivamente, costuma ser exigente e ter uma lista de qualidades que a pessoa “certa” deve possuir. Isto dificulta muito, porque usualmente eliminam muitas pessoas só pelas primeiras impressões ou porque não possuem determinada característica e elas próprias ao fazer esta selecção tão rigorosa estão a limitar as suas próprias hipóteses de encontrar alguém, porque no fundo querem evitar estar a andar com múltiplos parceiros até encontrarem a pessoa certa. Assim exigem mais e aguardam pela pessoa ideal.

Isto nem está mal nem está bem, para cada caso é que temos de avaliar se resulta, se uma pessoa se sente bem em procurar mesmo que demore muito tempo, isso não é problema, já o é se a pessoa em causa quer encontrar alguém mas esperar não é com ela. Por outro lado se uma pessoa quer ter um parceiro certo e devido às situações tem um namorado novo todos os meses também não é uma situação agradável, enquanto que para outras pessoas até será benéfico sair com pessoas novas todos os meses.

Cada caso é um caso, mas o que interessa ver e reflectir é nas situações que não estão bem, naquelas situações em que nós não queremos estar, isso é que devemos assumir e tentar modificar. Porque não adianta sermos quem não somos e andar a viver vidas que não são as nossas. O lado afectivo é importante e se estivermos mal, isso vai reflectir noutros aspectos. Por isso se estiverem em desequilíbrio emocional questionem-se porque estão assim, a situação é insuportável? Deixaram de amar a pessoa em causa, ele não vos ama? Foram traídas ou maltratadas?

Vale a pena valorizarem o vosso lado emocional e investirem naquilo que está bem, mas cortar com o que está menos bem ou mesmo mal. É preciso que sejamos fortes e corajosos para o fazer. Uma situação emocional má e a vossa vida não pode estar totalmente bem. Pensem nisto e procurem dentro de vocês a solução. A solução existe e reside em vocês.

Friday, May 30, 2008

A Arte de Amar

Deve haver uma arte de amar. Provavelmente, até haverá várias, para justificar que ao longo dos tempos e de múltiplas formas de expressão o amor seja cantado, louvado, evocado como um sentido central da vida e da existência.
Deve haver um jeito particular de alguns para ultrapassarem a emoção do que sentem quando se percebem vinculados a alguém e, a partir disso, construírem poéticas, estéticas e até éticas do estar e do ser.
O gostar de alguém é uma imensa, uma enorme banalidade que quase todos experimentamos. Mesmo que o entusiasmo da descoberta de sentimentos e sensações novas toque todos e acarrete nesse movimento períodos de euforia ou beatitude, a maioria dos mortais faz do amor um sentimento manso, um ponto de apoio para projectos de vida, um conforto implícito e até feliz. Alguns no entanto parecem destinados a acreditar que o amor tem de ser pungente e cheio. Que a intensidade é melhor, muito melhor, que a amenidade. Que o amor é mais profundo ou mais verdadeiro quanto mais exuberante e colorido for. Que o amor, erotizado, sacralizado, tingido de drama, é essencial à vida e cobre amantes de uma transcendência única.
A busca do amor, do grande amor desatinado e incontido, é, por isso, o caminho de alguns, que precisam do frenesim e do alvoroço para reconhecer que o que sentem é mesmo aquilo que querem, podem e devem sentir.
A arte de amar, as várias que se verifica existirem e, em alguns casos, fazerem escola, acaba, assim por ser os meandros complexos, as encenações cuidadas, os jogos de sedução, as meias palavras veladas ou enigmáticas, as carícias sub-reptícias, as lágrimas silenciosas, os gestos inacabados, os bilhetes de duplo sentido, os desencontros programados, as ameaças e chantagens afectivas meio proferidas, as declarações de amor por interpostas coisas os pessoas.
A arte de amar deve ser o tempo que se dedica à ideia de amor, o sofrimento experimentado em ciúmes e medos de perda, os pensamentos sobre o devir, sobre o que o outro disse, como disse ou querendo dizer o quê.
A arte de amar, acho que é o embrulho, às vezes opulento e requintado, em que se esconde, em que se tapa aquilo que nos liga a alguém e faz desse vínculo uma estória de pertença.
Pena, mesmo, que uns tantos tenham com essa arte uma relação tão exterior e frágil.
Pena, mesmo, que haja outros que se esmeram tanto no invólucro que acabem por desprezar o conteúdo. Mas é claro que já se sabe que o equilíbrio é, para todos nós, apenas uma tendência.


- Isabel Leal, Professora de Psicologia, Clínica no ISPA

Mas afinal o que é essa arte? Quantas vezes já parámos para pensar nisso... Quanto a conclusões, cada um faz as suas...

As Liberdades Essenciais


As liberdades essenciais são três: liberdade de cultura, liberdade de organização social, liberdade económica. Pela liberdade de cultura, o homem poderá desenvolver ao máximo o seu espírito crítico e criador; ninguém lhe fechará nenhum domínio, ninguém impedirá que transmita aos outros o que tiver aprendido ou pensado. Pela liberdade de organização social, o homem intervém no arranjo da sua vida em sociedade, administrando e guiando, em sistemas cada vez mais perfeitos à medida que a sua cultura se for alargando; para o bom governante, cada cidadão não é uma cabeça de rebanho; é como que o aluno de uma escola de humanidade: tem de se educar para o melhor dos regimes, através dos regimes possíveis. Pela liberdade económica, o homem assegura o necessário para que o seu espírito se liberte de preocupações materiais e possa dedicar-se ao que existe de mais belo e de mais amplo; nenhum homem deve ser explorado por outro homem; ninguém deve, pela posse dos meios de produção e de transporte, que permitem explorar, pôr em perigo a sua liberdade de Espírito ou a liberdade de Espírito dos outros. No Reino Divino, na organização humana mais perfeita, não haverá nenhuma restrição de cultura, nenhuma coacção de governo, nenhuma propriedade. A tudo isto se poderá chegar gradualmente e pelo esforço fraterno de todos.

- Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'

Monday, May 12, 2008

Sei que não vou por aí!

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!


- José Régio, Cântico Negro