"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
- José Régio, Cântico Negro
Monday, May 12, 2008
Sei que não vou por aí!
Friday, May 09, 2008
A Vida em Pleno
Diariamente criticamos o destino: "Porque foi este homem arrebatado a meio da carreira? E aquele, porque não morre, em vez de prolongar uma velhice tão penosa para ele como para os outros?" Diz-me cá, por favor: o que achas tu mais justo, seres tu a obedecer à natureza ou a natureza a ti? Que diferença faz sair mais ou menos depressa de um sítio de onde temos mesmo de sair? Não nos devemos preocupar em viver muito, mas sim em viver plenamente; viver muito depende do destino, viver plenamente, da nossa própria alma. Uma vida plena é longa quanto basta; e será plena se a alma se apropria do bem que lhe é próprio e se apenas a si reconhece poder sobre si mesma. Que interessa os oitenta anos daquele homem passados na inacção? Ele não viveu, demorou-se nesta vida; não morreu tarde, levou foi muito tempo a morrer! "Viveu oitenta anos!". O que importa é ver a partir de que data ele começou a morrer. "Mas aquele outro morreu na força da vida". É certo, mas cumpriu os deveres de um bom cidadão, de um bom amigo, de um bom filho, sem descurar o mínimo pormenor; embora o seu tempo de vida ficasse incompleto, a sua vida atingiu a plenitude.
"Viveu oitenta anos". Não, existiu durante oitenta anos, a menos que digas que ele viveu no mesmo sentido em que falas na vida das árvores. Peço-te insistentemente, Lucílio: façamos com que a nossa vida, à semelhança dos materiais preciosos, valha pouco pelo espaço que ocupa, e muito pelo peso que tem. Avaliemo-la pelos nossos actos, não pelo tempo que dura. Queres saber qual a diferença entre um homem enérgico, que despreza a fortuna, cumpre todos os deveres inerentes à vida humana e assim se alça ao seu supremo bem, e um outro por quem simplesmente passam numerosos anos? O primeiro continua a existir depois da morte, o outro já estava morto antes de morrer! Louvemos, portanto, e incluamos entre os afortunados o homem que soube usar com proveito o tempo, mesmo exíguo, que viveu. Contemplou a verdadeira luz; não foi um como tantos outros; não só viveu, como o fez com vigor.
- Séneca, in 'Cartas a Lucílio'
Tuesday, April 15, 2008
Adrian by Jewel...
Adrian came home again last summer
Things just haven't been the same around here
People talk
People stare
Oh, Adrian, come out and play
An unfortunate accident in a canoe
Dr. said, 'I'm sorry not much I can do'
The air was so still
His eyes did not blink
Oh, Adrian, come out and play
Little Mary Epperson liked him
She vowed always to watch after him
Still he did not move
Dr. said it's no use
Oh, Adrian, come out and play
She sat by his side, watched the years fly by
He looked so fragile, he looked so small
She wondered why he was still alive at all
Everyone in town had that 'I'm sorry look'
They talked in a whispered hush, said
'I'd turn the machines off'
But still she sat by his side
Said, 'Life he won't be denied
Oh, Adrian, come out and play
Yellow flowers decorate his bedroom
Sign above his door says 'Welcome Home'
But he just sits and stares
He's awake but he's still not there
Oh, Adrian, come out and play
She sat by his side, watched the years fly by
He looked so fragile, he looked so small
She wondered why he was still alive at all
Little Mary Epperson grew up lovely
She still comes to visit him on Sundays
He's like an unused toy
He's got big hands but the mind of a little boy
Oh, Adrian, come out and play
Adrian came home again last summer
Things just haven't been the same around here...
Tuesday, April 08, 2008
Se eu fosse...
Se eu fosse uma poetisa,
Um dia por certo escreveria,
Um verso de cada cor:
Seria negra a saudade,
Azul a felicidade,
e vermelha a minha dor.
E se ainda não bastasse,
E restasse alguma cor
Precisando de esplendor,
Seria verde a esperança
Desta alguém que não se cansa
De esperar por teu amor...
Monday, April 07, 2008
Pudesse eu
Pudesse eu não ter laços nem limites- Sophia de Mello Breyner Andresen
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos
instantes!
Fraldiqueiros
Coitarados!- Alexandre O´Neill
Meninos, tiveram pouca mamã.
Carências afectivas
afunilaram-nos psiquicamente
desde a impoética infância até este corrimento
senti-
[mental
em que, grandinhos, se compensam, comprazem.
Continuam a gotejar.
Coitarados!
Gulosos de pontas de dedos,
perdem-se em beijoqueirices, diminutivas ternurinhas.
Têm sempre
rebuçadinhos d'alma para as mulheres.
Falam freud ao colo das amigas.
Fraldiqueiros. . .
Vailevar-lhes isso a nojo, machão?
MuIheres
gostam. Riem, prazidas.
«Venha cá à mamã!»
O golpe do coitadinho
(não confundir com o golpe
do irmãozinho, esse na base do esquema da alma
gémea)
é o que estás a ver: saltar para o regaço e pedir nhém
[nhém
em nome do Sigismundo, daquele que dizia, salvo erro:
A alma? Geme-a...
Fraldiqueiros
a mandarem beijinhos por teleférico!
[de saliva
Engatinhantes, tiram do estojo complexos em forma
[de saxofone
e
tocantam-lhes a pingona freudista canção do bandido
,
Fraldiqueiros. . .
Mulheres gostam. Até onde?
Saturday, April 05, 2008
Solidão
A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.
A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.
O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflecte. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o património de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.
- Vinicius de Moraes
Tuesday, April 01, 2008
É claro que a vida é boa!
É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...
- Vinicius de Moraes
Wednesday, March 26, 2008
A Sabedoria de Salomão
Então duas prostitutas apresentaram-se diante do rei.
Uma delas disse-lhe: «Por favor, meu senhor, eu e esta mulher moramos na mesma casa, e eu dei à luz um filho, estando ela em casa.Três dias após o meu parto, ela também deu à luz. Vivíamos juntas, sem que mais ninguém morasse ali; só lá estávamos nós as duas.Numa noite o filho desta mulher morreu, abafado por ela, que dormia sobre ele. Em plena noite ela levantou-se, enquanto a tua serva dormia, tomou de junto de mim o meu filho e deitou-o a seu lado; o seu filho, o morto, passou-o para junto de mim. Ao levantar-me de manhã para dar de mamar ao meu filho dei com ele morto. Quando se fez dia, examinando bem, vi que aquele não era o meu filho.»
A outra disse-lhe: «Não é assim; o meu filho é o que está vivo; o morto é que é o teu.» Aquela, por sua vez, dizia: «Não! O teu filho é o morto; o vivo é que é meu.» Assim falavam elas diante do rei. O rei disse então: «Esta diz: ‘O meu filho é o vivo; o morto é teu.’ Aquela, por sua vez, diz: ‘Não! O teu filho é o morto; o vivo é que é o meu.’»
Salomão ordenou: «Trazei-me uma espada.» E trouxeram uma espada ao rei.Disse: «Cortai o menino vivo em dois e dai a cada uma a sua metade.»
Então a mãe, a quem pertencia o filho vivo, e cujas entranhas, por causa do filho, estavam comovidas, disse ao rei: «Por favor, meu senhor, dai-lhe a ela o menino vivo! Não o mateis!» A outra, pelo contrário, dizia: «Cortai-o em dois! Assim, nem será para mim nem para ti!»
Foi então que o rei tomou a palavra e disse: «Dai o menino vivo à primeira; não o mateis; ela é que é a sua mãe.»
Tuesday, March 25, 2008
Não se luta por Amor
"O verdadeiro amor não precisa de lutas. Não se luta por amor: ou há amor, ou não há. Também não é preciso iniciar jogos, fazer-se interessante, entrar na coreografia infernal de medir forças e poderes do tipo «não me telefonaste durante três dias, agora também não me apanhas e nem te respondo aos emails», bem como outros disparates do género que só nos fazem perder tempo e energia. No verdadeiro amor não há lugar para esquemas, é preciso confiar, dar e acreditar sem reservas. É pegar ou largar, porque quando pega, é óptimo, e se não pega, não vale a pena correr atrás, nenhuma marca de cola nem truques de falinhas mansas resolvem o problema."
- Margarida Rebelo Pinto
No meio destas guerrinhas é que se perde o comboio da felicidade. Até neste campo, o importante parece ser "quem é que começou", "de quem é a culpa", "quem é que cede primeiro" e outras parvoíces afins!
O que "vale a pena"?
"O nosso tempo afinou a crença que só vale a pena o que for compensatório. O que nos der mais conforto, mais poder, mais dinheiro, mais prestígio, mais fama. O que acrescentar qualquer mais-valia ao nosso investimento. Fazer o que quer que seja só pelo gozo parece bizarro, um argumento de quem esconde alguma coisa ou não tem mais nada para invocar."
- Isabel Leal
Onde fica no meio de tudo isto a realização pessoal, o enriquecimento do EU? Há pouco tempo inscrevi-me num workshop de teatro e logo vieram as críticas: "pra que te serve isso?", "Queres ser actriz?", etc e tal... não quero pra nada, quero pra TUDO, pra MIM, porque gosto, porque me LIBERTA.
Tuesday, March 18, 2008
Xuá-Xuá, a fêmea pré-histórica que inventou o teatro...?
Augusto BOAL (1998) narra o nascimento do teatro através da fábula chinesa de Xuá-Xuá, fêmea pré-histórica que teria inventado o teatro.
Segundo a fábula, a fêmea primordial teria sido engravidada por um macho de sua horda, o predador Li-Peng. Dessa união nasceu Lig-Lig-Lé, mas Xuá-Xuá não conseguia perceber a diferença entre ela e o filho, pois considerava-o parte integrante dela.
Num determinado dia, Li-Peng apoderou-se da criança e ensinou-a a caçar e pescar. Li-Peng sabia que ele e Lig-Lig-Lé eram diferentes, que um não fazia parte do outro, pois não via correspondência nenhuma entre as brincadeiras do casal e o nascimento do bebé. Ao se reencontrarem com a mãe, o filhote não a quis, preferindo a companhia do pai.
Segundo BOAL, foi nesse momento que se deu a descoberta! Quando Xuá-Xuá renunciou a ter o seu filho totalmente para si. Quando aceitou que ele fosse um outro, outra pessoa. Ela viu-se separando-se de uma parte de si mesma. Então, ela foi ao mesmo tempo actriz e espectadora. Agia e observava-se: era duas pessoas numa só – ela mesma! Era especta-actriz. Como somos todos espectadores.
Descobrindo o teatro, o ser descobre-se humano.
Segundo BOAL (1996), na medida em que a teatralidade, ou tomada de consciência de si mesmo, se efectiva, ocorre uma dicotomização entre o que o homem é e o que o homem pode ser. Essa dicotomia cria uma distância, pois o homem passa a colocar-se dentro e fora da situação, simultaneamente, distância que separa o “ser” do “poder”, o presente do futuro, o acto da potência.
Devido a isso, o homem “necessita de simbolizar a potência, criar símbolos que ocupem o espaço daquilo que é, mas não existe, que é possível e poderá vir a existir. Cria, pois, linguagens simbólicas: a pintura, a música, a palavra...” BOAL (1996).
O teatro convencional, entendido como a definição de uma linguagem artística específica, também foi criado para suprir a distância entre o homem que é e o homem que pode ser, entre o homem em acto e a emergência da potência que transforma este homem em outro.
O essencial, no entanto, é a capacidade humanizadora do teatro. O teatro convencional tende a mascarar a interpenetração dialéctica entre teatralidade e humanidade, na medida em que reserva à arte teatral para determinados indivíduos, profissionais do teatro.
Nesse sentido, BOAL (1996) observa criticamente que “No início, Actor e Espectador coexistem na mesma pessoa; quando se separam, quando algumas pessoas se especializam em actores e outras em espectadores, aí nascem as formas teatrais como as conhecemos hoje. Nascem também os teatros, arquitecturas destinadas a sacralizar essa divisão, essa especialização. Nasce a profissão do actor.”
"Fábula de Xuá-Xuá"
Conta uma antiga fábula chinesa, anterior dez mil anos ao nascimento de Cristo, que foi uma mulher que descobriu a arte do teatro.
Há milhares de anos, quando homens e mulheres eram nómadas, viviam em hordas e vagavam pelos vales, montanhas e margens dos rios, caçando animais e colhendo frutos para se alimentar, morando em cavernas para se proteger, nasceu Xuá-Xuá, a mais bela fêmea de sua horda. Quando cresceu, o mais forte dos machos, Li-Peng, sentiu-se atraído por ela e foi correspondido. Gostavam de ficar juntos, de sentir os odores mútuos, de se lamber, se tocar. Era bom estar um com o outro e isso os deixava felizes.
Certa dia, Xuá-Xuá percebeu transformações em seu corpo: seu ventre crescia e seus seios se avolumavam. Envergonhada, começou a evitar Li-Peng, que não compreendia os motivos da fêmea. Com o passar do tempo, ele descobriu que Xuá-Xuá não era mais aquela que ele amava, nem no físico, tampouco no comportamento. Os dois se distanciaram e Xuá-Xuá preferiu ficar só, vendo seu ventre inchar, enquanto Li-Peng, abandonado, procurou outras fêmeas, sem, contudo, encontrar em nenhuma o amor de sua primeira fêmea.
Xuá-Xuá sentia seu ventre mexer, sem obedecer à sua vontade, involuntariamente. Li-Peng, de longe, assistia à agonia de sua amada com tristeza e curiosidade, imobilizado como um espectador daqueles acontecimentos incompreensíveis.
O menino Lig-Lig crescia e se desenvolvia no ventre da mãe, sem distinguir os limites de seu corpo. Ele e a mãe eram um só: não respirava senão através de seu corpo, era alimentado pelo cordão umbilical e não por sua própria boca... Suas primeiras sensações foram acústicas e ele era capaz de organizar os sons interiores e exteriores e orquestrá-los. Numa manhã de sol, deitada à margem de um rio, Lig-Lig veio à luz!
Era pura magia! Xuá-Xuá olhava o seu bebê, sem compreender como aquele pequeno ser tinha saído de dentro dela. Sabia apenas que aquele corpo minúsculo era sem dúvida uma parte sua, que antes estava dentro dela e agora estava fora. Eram um só: a prova disso é que incessantemente queria retornar a ela, juntar seu pequeno corpo ao grande corpo, sugar seu seio para recriar o cordão umbilical. Isso acalmava Xuá-Xuá. Os dois eram ela mesma e ela era os dois. De longe, Li-Peng, bom espectador, observava.
Rapidamente Lig-Lig tornou-se independente, aprendendo a comer outros alimentos inclusive. Algumas vezes o pequeno corpo não obedecia mais ao grande corpo, como se ordenasse às suas pernas que se cruzassem e elas, involuntariamente, se pusessem a andar. Xuá-Xuá ficou aterrorizada por não ter mais domínio sobre aquele pequeno corpo, tão querido e amado. Li-Peng, que até então era mero observador, resolveu criar uma relação com o menino. E, enquanto Xuá-Xuá dormia, Li-Peng se aproximou e os dois partiram, como seres individuais, duas pessoas diferentes. Li-Peng era Li-Peng e Lig-Lig era Lig-Lig.
O pai ensinou o menino a caçar e a pescar. Os dois estavam felizes. Xuá-Xuá, ao contrário, estava desesperada com o desaparecimento de seu pequeno corpo e chorou muito. Gritava em vão entre vales e montanhas. Alguns dias mais tarde, Xuá-Xuá os encontrou, já que pertenciam à mesma horda. Tentou recuperar seu filho, mas Lig-Lig disse não. Xuá-Xuá, diante da recusa do menino, foi obrigada a compreender que eles não eram um, mas seres distintos com vontades e desejos próprios, mesmo que Lig-Lig tivesse saído de seu ventre e fosse obra sua.
Esse reconhecimento obrigou Xuá-Xuá a olhar para si própria, identificando-se como uma mulher, uma mãe, uma dos dois. Quem era ela? Quem era o filho e quem era Li-Peng? Quais os seus desejos? Onde estavam e para onde iriam? E quando? Qual a sua história?
Ao separar-se do filho, Xuá-Xuá encontrou-se a si mesma e descobriu a essência da arte do teatro. Xuá-Xuá se viu separando-se de uma parte de si mesma: ela agia e observava. Era duas pessoas em uma só! Descobrindo o teatro, o ser se descobre humano. E, em síntese, o teatro é a arte de nos vermos a nós mesmos, a arte de nos vermos vendo, pois somos todos especta-actores.



